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Reportagens

Preparação de equipes de alta performance sob estresse

Por Fernando Montenegro      |     27/11/2013 às 14:14

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O Cérebro humano é o dispositivo mais complicado que se tem notícia. Aprendeu-se mais sobre ele nos últimos 5 anos do que em toda existência da civilização.

Ele gerencia todos nossas atividades vitais. Ao longo da evolução da raça humana esse órgão duplicou de tamanho. Apesar de pesar menos de 1,5 Kg, consome 1/5 da energia do corpo. Alo longo dos milhões de anos, o cérebro evoluiu recebendo outros anexos e conexões sobre sua estrutura inicial.

A parte mais primitiva é o tronco encefálico, também presente nos répteis e outros animais. Nos mantém vivos e controla funções vitais como batimento cardíaco, digestão, pressão sanguínea e outras coisas que fazemos automaticamente sem pensar.

Centenas de milhares de anos depois foi acrescido o sistema límbico, onde ficam as amigdalas, pequenas como duas amêndoas. Elas transmitem nossas reações emocionais ao cérebro. Uma das emoções mais simples, primitivas e fortes é o medo.

Tive oportunidade de participar e conduzir por um bom tempo a formação dos Comandos, Forças Especiais e Guerreiros de Selva do Exército, onde os alunos são preparados para modificar a forma como o cérebro reage ao medo. Desde o início os alunos são submetidos a uma situação de pressão psicológica intensa visando a provocar o caos em suas mentes. O objetivo é submetê-los a uma situação de simulação de estresse de combate.

Foi observado que a maioria dos erros em combate está associada ao medo e ao pânico. Assim sendo, deduz-se que a capacidade de controlar esses impulsos seja extremamente importante. Como os militares que frequentam esses cursos estão sendo formados para as missões mais difíceis, perigosas e de altíssimo risco, os cursos são extremamente rigorosos. Em consequência, é muito grande o número de candidatos eliminados ou desistentes ao longo do processo de seleção e de formação.

Normalmente os alunos concludentes demonstram maior capacidade em ajustar a forma de pensar às exigências das atividades e respectivas pressões. Nem sempre são os alunos com melhor preparo físico que chegam ao final. Recordistas de natação, pentatlo, atletismo e medalhistas em outros esportes muitas vezes desistem durante algumas atividades extenuantes enquanto pessoas com performance física mais mediana mantêm a determinação de prosseguir no treinamento que envolve situações extremas de frio, dor, fome, sede, sono e o acabam concluindo.

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As amígdalas tendem a levar instintivamente a um estado de pânico face às situações de medo. Elas enviam sinais ao tronco encefálico usando suas conexões. Sempre que o medo estiver presente, a ansiedade se manifestará em sua plenitude, seja em sinais físicos, seja em sinais psíquicos. A partir daí, várias reações podem ser manifestadas no organismo: taquicardia, respiração acelerada, sudorese, calafrios, tremedeira, boca seca, tontura, formigamento nos pés e mãos dentre outros sintomas.

O treinamento de contra terror das Forças Especiais é realizado sob pressão. Os alunos são treinados para identificar os alvos com precisão e realizar o disparo quando necessário, controlando os impulsos de estresse enviados pela amígdala.

O treinamento é gradativo. Na fase final, pode ocorrer o incremento de outras variantes como gás lacrimogêneo no recinto, treino com máscara e pouca visibilidade. Alguns treinadores ou integrantes da equipe ficam misturados aos alvos, e a execução é aleatória, exigindo maior atenção e os erros não podem ser tolerados. Às vezes, a reação correta é rápida e letal, outras vezes é apenas identificação do refém e controle do impulso de atirar.

A preparação de combate corpo-a-corpo é outro evento em que os alunos aprendem a controlar suas reações e testar sua rusticidade, resistência e agressividade sob estresse extremo. Na fase final dessa atividade, os alunos são levados a uma situação de exaustão e precisam identificar instantaneamente a qual ameaça estão sendo submetidos para aplicar vigorosamente a técnica adequada na defesa. Faz parte da avaliação o controle de agressividade, do cansaço e correção de movimentos.

Outra atividade em que o aluno é submetido intensamente a treinamentos exaustivos é o paraquedismo, pois necessita contrariar o instinto de preservação e se atirar no vazio. A sistemática busca automatizar procedimentos e reações possíveis para as diferentes emergências a que o paraquedista possa ser exposto. Nesses casos, o tempo que o militar tem para salvar sua vida é mínimo. Qualquer hesitação devido ao medo na tomada de decisão pode ser fatal.

Essa lapidação da reação dos combatentes só é possível porque o córtex frontal, outra parte do cérebro humano, também processa o medo. O córtex caracteriza uma maior evolução humana e surgiu após as amígdalas. Ele é a camada externa do cérebro, fina e enrugada, que pode chegar a ser quatro vezes maior que o dos outros primatas.

Foi descoberto que as informações dos nossos sentidos chegam às amígdalas com o dobro da velocidade que demoram para chegar aos lobos frontais. A diferença de velocidade dos sinais significa que sabemos reagir instintivamente a uma ameaça, caso contrário, ficaríamos paralisados de medo esperando os lobos frontais decidirem a reação correta.

Por trás do medo e do pânico está o desconhecido, não saber o que fazer. O cérebro paralisa, como um jacaré paralisa ao ver um facho de lanterna. A amígdala pode enviar sinais de medo muito velozes, mas nem sempre são corretos. Tão logo você percebe que a situação não corresponde a uma ameaça a volta à calma ocorre naturalmente.

O objetivo desse tipo de treinamento consiste em controlar os sinais emitidos pela amígdala através do lobo frontal, ou seja, de forma racional. Aprende-se a minimizar o retardo nas reações à situação de estresse, gerando movimentos/comportamentos instantâneos.

O Século XXI já vem sendo caracterizado pelo grande crescimento do emprego de Forças de Operações Especiais, assim sendo, os três principais centros de formação desses recursos humanos no Brasil (Centro de Instrução de Operações Especiais, Centro de Instrução Paraquedista e Centro de Instrução de Guerra na Selva) estão em constante busca da excelência na instrução e aperfeiçoamento dos processos de ensino.

Nos módulos de mergulho de treinamento das Forças Especiais aprende-se a controlar o medo da falta da respiração. O ser humano, ao longo de sua evolução, foi programado para temer situações sob a lâmina d´água. Por isso, é necessário muito autocontrole para conter o impulso de emergir e respirar.

Os alunos são preparados gradativamente para realizar tarefas subaquáticas complexas. Inicialmente realizam-nas fora d´água sem tempo, depois com tempo e então passam a enfrentar situações críticas totalmente imersos. Eles são submetidos a atividades planejadas que são conduzidas por um instrutor interrompendo seu fluxo de ar de diversas formas, escondendo as válvulas reguladoras, promovendo cambalhotas, arrancando a máscara e dando nós no seu equipamento em ataques contínuos que podem levar mais de quinze minutos enquanto são avaliados e observados em suas reações.

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O aluno ansioso aumenta rapidamente o seu consumo de oxigênio, reduzindo sua capacidade de raciocínio e o tempo disponível para solucionar os problemas. Dependendo do desempenho do aluno, ele pode chegar a passar metade do tempo sem ar. Por mais que tenham aprendido e treinado a fazer isso fora d´água, praticar sob essas condições é extremamente difícil e reprova os alunos que não aprendem a lidar com o estresse sob essas condições.

Quando o aluno começa a ficar sem ar, suas amígdalas acionam o “botão” de pânico, que o impele a emergir. O córtex cerebral precisa controlar esse impulso para que o combatente continue autocontrolado. Nesse processo, o estudante tem que segurar a respiração muito além do normal enquanto a equipe de instrução avalia seus comportamentos.

Os impulsos nervosos emitidos pelo cérebro se deslocam a mais de 400Km/h e sob estresse as amígdalas liberam adrenalina e cortisol na corrente sanguínea, preparando o organismo para agir emergencialmente. Esses hormônios aceleram a respiração e o batimento cardíaco, elevam a pressão sanguínea, deixam os sentidos mais alerta, a memória mais aguçada e o corpo menos sensível à dor, mas mesmo assim, esse teste de competências subaquáticas é muito difícil. O maior inimigo do aluno nesse exercício é o pânico, que o leva a perder o controle debaixo d´água.

Em todas as situações citadas acima, o controle do medo é fundamental para o êxito no treinamento.

Verificando entre os concludentes desse tipo de treinamento, observou-se que quase todos eles balizam seu comportamento usando quatro ferramentas mentais que os ajudam a controlar o estresse mesmo nas situações mais extremas:

1. Estabelecimento de objetivos intermediários

2. Mentalização

3. Desenvolvimento da autoestima

4. Controle de respiração

O estabelecimento de objetivos auxilia os lobos frontais, que são os supervisores do cérebro. Com isso, é facilitado o raciocínio e o planejamento. Concentrar-se em metas específicas permite que o córtex mantenha as amígdalas sob controle. Os alunos costumam estabelecer prazos simples como: “vou chegar até a próxima refeição”, ou “até a próxima liberação”, e assim por diante. O importante é ele focar nesses objetivos intermediários e se manter firme nas convicções.

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