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Entrevistas

Entrevista: José Mariano Beltrame

Por Rafael Sayão      |     28/12/2011 às 14:15

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Operacional – O senhor assumiu a secretaria num cenário de caos e abandono da segurança pública do estado. Como foi esse primeiro contato com essa realidade?

Beltrame – A gente já conhecia a realidade do Rio de Janeiro pelo trabalho desenvolvido aqui durante aproximadamente três anos na Polícia Federal. É muito difícil. O Rio tem problemas históricos, são problemas antigos, não são problemas recentes. E por eles serem antigos estão muito arraigados no seio da sociedade inteira, e principalmente das instituições. As instituições também são muito antigas, muito arcaicas, chegaram aqui com D. João. Não é algo fácil de se mudar. Mas a nossa preocupação primeira era mostrar para a população que a gente tinha um plano, que a gente achava e achamos que a gente sabe fazer. E de que é possível. Só que isso precisa ser construído como qualquer proposta. Ela tem que ser construída, tem que ser trabalhada, planejada, estudada, escrita. Tem que se localizar as necessidades, os aspectos positivos, negativos, o que tem, o que falta. E isso levou quase dois anos, uns dezoito meses. Tivemos um Pan Americano no meio disso, eu cheguei aqui a cinco meses do Pan Americano, sem saber direitinho o que estava acontecendo. Na primeira ação, que foi mandar aqueles presos para os presídios federais, o tráfico se achou no direito de se insurgir na cidade, metralhou delegacia, queimou ônibus com gente dentro. Então, o Rio de Janeiro tem um ingrediente que é o dia a dia dele, muitas vezes é muito conturbado. E se a gente se joga no dia a dia você não faz uma estratégia. Você tem que trabalhar nessas duas frentes. E foi aí que a gente tentou fazer: trabalhar no dia a dia, no varejo, enquanto no atacado a gente produzia com calma que eram os dois grandes pilares que hoje vocês têm aí, que são as UPPs, para as áreas consideradas conflagradas, e o sistema integrado de metas, que são as metas para redução dos índices de criminalidade no asfalto. Nós começamos as UPPs em novembro de 2008. E praticamente um ano depois foi que as coisas começaram a andar. O primeiro ano (se refere ao primeiro ano de governo) foi um ano muito difícil, porque tinha que se inteirar efetivamente toda a máquina de segurança pública. Você tinha que prestar segurança, tinha o Pan Americano para fazer, foi um semestre voltado ao Pan Americano. E aí você tinha aquele problema muito forte, a presença do Comando Vermelho aqui, que qualquer coisa fazia um movimento ou outro, e a gente sempre com medidas esporádicas. O Rio de Janeiro, na minha percepção, não tinha um plano de segurança. Ou seja, não tinha nada a ser seguido, tinha que ser construído. A percepção que eu tinha é que a segurança pública no Rio de Janeiro era pautada pela mídia negativa. “Deu um problema, bota uma viatura lá! Deu problema não sei onde, toca a polícia pra lá!”. E é aquela política do cachorro querendo morder o rabo porque era casa de políticos e político precisa de mídia positiva. Ele tem que estar atendendo a demanda da mídia. E nós tivemos que sustentar com muito esforço aquele ano, até começar a mostrar para a população “Olha, essas pessoas têm um plano, essas pessoas têm uma ideia, eles pensam que o Rio de Janeiro é sem dúvida nenhuma uma cidade partida”. Tem que se reconhecer isso, tem que usar verbos fortes e adjetivos fortes. Não adianta esconder, tem que dizer assim:

– “Estas áreas precisam ser OCUPADAS”

– “Mas ocupação é uma palavra de guerra”

– “Mas nesses lugares É guerra”

Não é que a cidade esteja em guerra, mas você possui núcleos que têm que ser tratados dessa forma. E aí depois nós fomos atacando esses pontos, atacando a cidade. Hoje nós temos uma linha de índice de criminalidade que está se sustentando, efetivamente descendo. As UPPs, eu acho que não sou suspeito para falar. É claro que têm problemas, vai ter problemas, porque a violência ela é do fato social, antes de mais nada ela é da sociedade. Mas o que é inconcebível é a questão do achincalhe, da arma de fogo, da ostentação de poder com base no fuzil, que infelizmente o Rio de Janeiro conviveu com isso de uma maneira inofensiva durante 30 ou 40 anos.

Operacional – A gestão do senhor é marcada pelo desenvolvimento e pela valorização da atividade de inteligência, isso é bem claro…

Beltrame – A inteligência hoje tem que ser, vou dizer pra vocês por que. Estado nenhum no Brasil tem condições hoje de fazer polícia assim: carro, homem e arma. Eu preciso carro, homem e arma. Não tem dinheiro para sustentar isso. Então você precisa pensar, você precisa rever seus conceitos. Eu acho que muito no Brasil tem que ser desenvolvido em segurança pública, se sabe muito pouco em gestão de segurança pública. Você não tem gestores de segurança pública. Não é simplesmente ter pessoas especializadas, e teóricos em segurança pública. Você tem que pegar essa teoria e trazê-la para a realidade, que aqui no Rio é uma, e ali em São Paulo, que fica a 500 km, é outra. Lá em Porto Alegre nem se fala. E lá no Amazonas você não quer carro, você quer barco. O país precisa desenvolver gestores de segurança pública. Porque não é só o dinheiro, não é só o orçamento, não é só carro e gente, carro e gente. Você tem algo que você pode gerenciar. Eu acho que aqui no Rio de Janeiro, de certa forma, a gente mostrou isso.

Operacional – Os moradores das cidades vizinhas mencionam que o processo das UPPs deslocou a criminalidade, com o surgimento de novas práticas de crimes. Como a secretaria vem trabalhando com isso? Essas manchas estão sendo observadas?

Beltrame – Em primeiro lugar existe um pouco de mito nisso. Eu recebo aqui prefeitos, talvez até do menor município do Rio de Janeiro, que chegam aqui, claro que querendo buscar segurança para suas cidades, dizendo “Olha secretário, o pessoal do Alemão (complexo de favelas na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, ocupado pelo Exército em novembro de 2010) está todo lá na minha cidade!”. Hoje chega uma caminhão de mudança em determinada cidade, e é “o pessoal do Alemão que migrou para lá”. Aparece uma van suja de lama, “é o pessoal do Alemão que chegou”. Abre a porta da van e sai uma bola, e um monte de gente correndo atrás dela, e são os traficantes. Então há um pouco de mito nisso. O que não quer dizer que não exista, e vou te dizer por quê. O cara que vive do tráfico, e você tem aí alguns grandes traficantes, é como em qualquer oligarquia. É um grupo de pessoas que têm condições de fazer isso, de pegar o “reinozinho” deles e transferir para a Baixada (Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro), transferir para a zona norte, transferir para São Paulo ou quem sabe para o Nordeste. A maioria são soldados do tráfico, são pessoas que vivem fazendo segurança de traficantes, cuidando de armazenamento de drogas, sendo olheiro no radinho por R$10, R$15 por dia. Essa pessoa não tem como conseguir guarida num outro lugar. Eu faço um exemplo: se eu te convido pra você passar uns dias na minha casa, eu te convido porque eu te conheço. Agora, isso não quer dizer que você possa levar mais três amigos, aí não vai dar. Eu vou receber você. Então, o cara que está num nível, este cara nem é recebido em outro lugar. Quando se fala em migração, parece que vai aquela leva de gente como viram no Alemão. Vocês acham que fora do Alemão tem lugar para todas aquelas pessoas? Então, têm migração? Tem. Mas são algumas lideranças. E a gente percebe isso. A gente percebe que você tem na Baixada, por exemplo, você vê que tem. Niterói também tem. E por que você vê que tem? Primeiro, porque nós acompanhamos pela inteligência. Segundo, porque os índices criminais têm que se manifestar. Porque não adianta um bandido sair daqui e ir para outro lugar; se ele lá não pratica crime, os índices criminais desse lugar não vão se alterar. Então para a segurança pública ele migrou, mas desistiu de ser traficante. Então, se há migração – “Ah foram pra minha cidade, foram pra tua cidade” – eu pego os índices do ISP (Instituto Estadual de Segurança Pública) e digo “Se foram para a tua cidade, fazem três meses que o roubo de carro oscila na mesma faixa, etc”. E têm lugares (cidades) que vêm aqui e dizem “Olha, os caras foram para lá”, e você vai ver e realmente as coisas aumentaram.

Operacional – O combate ao tráfico de drogas hoje é inédito, isso é visível…

Beltrame – Existe um ineditismo também, na minha percepção, no que diz respeito à corrupção. O que vocês estão vendo nas últimas semanas em relação à corrupção, desvio de conduta…

Operacional – Seria o alvo da Secretaria hoje?

Beltrame – Não tenha dúvidas. Estruturamos as corregedorias no início de 2011 para combater isso de forma pesada. E agora, graças a Deus, os resultados, a partir de um tempo para cá é toda semana.

Operacional – A questão das Forças Armadas foi algo que sempre teve, mas que foi muito pontual; e o senhor demonstrou essa parceria. Como ela foi costurada?

Beltrame – Vocês já devem ter reconhecido aqui que eu sou muito pragmático para certas coisas. Eu acho que as coisas talvez mais difíceis são as mais fáceis de se resolver, desde que você diga o que você precisa. O Rio de Janeiro não vai sair desse problema sozinho, as polícias não vão resolver isso sozinhas. Elas precisam do apoio da Polícia Rodoviária Federal, precisam do apoio do Ministério Público, precisam do apoio da Polícia Federal, que me ajuda desde que assumi, na parte de inteligência. Nós precisamos disso. E o motivo que toda UPP que eu faço eu boto todo mundo naquela mesa, é para dizer que a luta aqui é do bem contra o mal. Agora, nós temos talvez uma participação bem maior nisso, porque a constituição estadual nos diz isso, é função nossa de se fazer. Agora, isso é muito grande para a polícia bater no peito e dizer: “Não, eu vou resolver tudo isso aqui”. A gente precisa (precisava, acho eu) dizer, naquele momento que o Rio de Janeiro incendiava, e que chegou nessa sala a informação de que isso vinha de um presídio federal para dentro da Vila Cruzeiro, o que eu tenho que fazer? Eu tenho que entrar na Vila Cruzeiro. Vamos entrar na Vila Cruzeiro. Conseguimos entrar? Conseguimos. Mas já que nós vamos entrar, e fazer uma operação traumática – porque ela pode ser traumática – vamos fazer esse trauma de uma vez só. Não vou entrar lá e sair. Então é o seguinte: “Gente, eu vou entrar, mas eu não posso ficar”. E aí eu digo: “Exército, você não pode me ajudar?”. Porque eu vou entrar, e vou sair, vou debelar esse foco incendiário. Mas daqui a um ano, 16 meses, vou voltar para cá, vou ter a possibilidade de mais outra operação traumática.

Operacional – Seria uma das grandes mudanças na mentalidade da secretaria hoje? Você entra e fica?

Beltrame – O Exército graças a Deus entendeu, graças a Deus está lá fazendo um excelente trabalho. Vamos assumir aquilo lá sem pressa, estamos nos preparando para fazê-lo. Acho que o Exército está dando uma lição de brasilidade para todo esse país. Acho que o Exército mostra que não está voltado somente para segurança externa, tem aí o conceito de segurança interna. Sei que isso pode gerar em alguns segmentos do Ministério da Defesa de que isso pode virar uma coisa casuística. Não acredito nisso, e digo por quê: onde no Brasil você tem uma situação como no Rio de Janeiro? Em Recife? Em Curitiba? Em São Paulo? Porto Alegre? Você não tem. Agora, aqui no Rio de Janeiro você tem a topografia; tem facção criminosa; você tem três facções criminosas que se odeiam; você aqui tem uma coisa que só o Exército tem, que é o fuzil, a antiaérea, a traçante. Onde é que tem isso? Em Goiânia? Aquele problema do Distrito Federal, que é um problema sério, talvez pior que o do Rio de Janeiro, ali que é uma área difícil à polícia entra. Então eu não vejo como o Exército ter a preocupação de “Ah, depois vão querer me chamar pra lá e pra cá”. Não. Eu acho que aqui é o problema que sem dúvida nenhuma a gente precisa desse tipo de parceria. E você não tem nada semelhante, igual, no resto do Brasil, e diria no mundo.

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Operacional – Sobre essa questão que o senhor apontou sobre a situação do Rio de Janeiro ser peculiar… A aparência do nosso policial militar, hoje, é de um combatente, ele não tem aquela aparência do agente de segurança pública…

Beltrame – Eu diria que o policial militar e o policial civil do Rio de Janeiro são os policiais mais bem preparados para fazer, como a gente diz na linguagem policial, ações de assalto, no Brasil. Exatamente porque você não tem essa peculiaridade. Policiais para fazer ações de assalto, como o policial carioca não existe.

Operacional – O senhor vê uma regressão desse quadro?

Beltrame – Claro. A UPP está dizendo isso. O que nós temos que fazer? Nós temos que fazer com que o policial não seja um guerreiro. Que o PM não seja um soldado, que o PM seja um operador de segurança pública. Porque o PM aqui foi jogado à guerra. Vai lá, mata, morre, fere, vê o companheiro ferir. Ele foi preparado pra isso, ele foi jogado a isso, porque antes a política era entra e sai. E se você hoje tirar o fuzil dele, ele se sente nu, como eu já disse. E nós precisamos reverter esse paradigma, e a UPP está revertendo. É tirar o policial que está na guerra, pelo policial prestador de serviço. E isso não é bravata, porque hoje nós já temos quase quatro mil policiais que já são assim, que já têm esse perfil. Que estão nas favelas com arma Taser. Isso é que precisa ser mexido, porque durante 40 anos as academias, as escolas fizeram desses policiais, soldados. A farda dele é de soldado, o hino que ele canta na academia é de soldado, é guerra, honra, sangue, o herói. Gente, isso não é segurança pública, não é isso que se quer. O que você quer é um operador de segurança, uma pessoa que interage. Como eu fui criado lá na minha terra com o famoso “Pedro e Paulo”, que aqui chamavam de “Cosme e Damião”. É esse cara que traz a notícia: – “Olha, tem uma moto lá naquela esquina que nunca esteve aqui. Vai lá ver o que é”. É o que hoje acontece nas UPPs. A polícia entra hoje na UPP com outra postura, entra forte mostrando que não está ali para entrar e sair. O Disque Denúncia e o 190 fervem. Por quê? Por duas coisas: porque a população estava realmente aprisionada e porque ele via o policial com outra postura, “Agora eu vou entregar porque eu acho que a coisa vai”. E foi assim que em 40 dias se botou uma pá de cal na maior favela do mundo.

Operacional – O senhor recentemente apontou, em evento na ADESG, a entrada do fuzil automático como um dos grandes responsáveis pelo elevado nível de violência nos confrontos. O senhor poderia detalhar um pouco essa questão?

Beltrame – Se você recuperar, foi lá em 83, o cara lá na Rocinha chamava a metralhadora, naquela época aquelas metralhadoras INA… Ele chamava ela de Jovelina. “A Jovelina canta, e canta bonito”. Ali começou a arma automática, ali entrou a arma automática para garantir território. Ali ela entrou não para combater a polícia, foi para que ninguém o tirasse de lá. E lógico, eles começaram a fazer dinheiro, e onde tem dinheiro dá briga. Aí o Comando Vermelho, a falange vermelha, se dividiu em Comando Vermelho, TCP e ADA. Aí esses caras saíram pelo Rio de Janeiro procurando território. E aí foram se espalhando, e para não tomar um do outro, veio à arma automática, foi aquela enxurrada. Aí eu ia lá tomar a Rocinha com um 38 e o cara vinha com uma metralhadora; eu vinha com uma metralhadora e o cara descobriu o fuzil 5,56. Aí eu ia com um 5,56, e ele descobriu o 7,62. E aí nós fomos parar nas .50, traçantes, antiaéreas. Tudo para garantir território. E não era só para combater a polícia. Era para que o ADA não tomasse o Comando Vermelho, o Comando Vermelho não tomasse o TCP, e assim sucessivamente. E assim que o Rio de Janeiro foi para o mundo mostrando a guerra na Rocinha, no Vidigal. Mostrando a guerra aqui da Tijuca, onde você tinha 14 morros, cada um de uma facção. Nós estávamos conversando aqui, e a traçante pegando em cima. E o Rio é a cidade partida, porque isso não é o Rio de Janeiro, é um “troço” pequeno ali.

Operacional – Como o senhor analisa o aumento dos casos de agressão as forças nas comunidades dos complexos do Alemão e da Penha logo após a saída do Exército Brasileiro. A mídia vem noticiando ataques recentes as Unidades de Polícia Pacificadora, o senhor acha que são atos isolados ou fazem parte de ação orquestrada de maior porte para desestabilizar a política de segurança do estado?

Beltrame – Não termos informações de ataques orquestrados contra as UPPs. Houve ocorrências recentes em datas distintas e em comunidades com realidades e situações diferentes. Cada comunidade pacificada tem uma realidade muito própria. Na maioria delas, não há ocorrências policiais graves, mas em algumas vemos ações de resistência do tráfico à ocupação, tentando recuperar o domínio perdido. A pacificação está no caminho certo. É preciso, cada vez mais, aproximar a polícia da população, pois são os moradores os maiores interessados em ver sua comunidade livre do tráfico e recebendo serviços públicos e privados essenciais- o que não acontecia sob a ditadura do fuzil. A população não admite mais retrocesso no processo de pacificação.

Operacional – Diversas ações, projetos e intercâmbios estão sendo desenvolvidas no campo da segurança pública para preparar os policiais para os grandes eventos que se aproximam. Quais são as principais ações desenvolvidas pela Secretária de Segurança neste sentido.

Beltrame – São duas frentes. A Subsecretaria de Educação, Valorização Profissional e Prevenção da Secretaria de Segurança realiza ciclos de cursos ministrados por autoridades estrangeiras e nacionais para qualificar os policiais para os grandes eventos. estamos investindo no treinamento dos policiais, por meio de convênios com as Embaixadas da Espanha, dos Estados Unidos e da Alemanha. Os cursos vão desde treinamento antibombas ou contra atentados com armas químicas, até o aprendizado dos policiais no idioma inglês, para facilitar a comunicação com turistas. Além disso, este ano foi criada a Subsecretaria de Grandes Eventos, cujo titular é o delegado de Polícia Federal Roberto Alzir. A Subsecretaria de Grandes Eventos trabalha com o conceito de “cidade segura, evento seguro”. O objetivo não é preparar o Rio apenas para o evento, mas deixar um legado para o cidadão que vive e trabalha na cidade. A subsecretaria tem 18 projetos com interfaces nas diversas áreas da Segurança Pública, dentre os quais se destacam o Centro Integrado de Comando e Controle, que será inaugurado no início de 2013 para reunir as forças de segurança da cidade em um único local com monitoramento 24 horas e um gabinete para gestão de crises. A Cidade da Polícia é outro projeto, que reunirá todas as delegacias especializadas em um novo prédio nas proximidades do Complexo do Jacarezinho e vai colaborar para a pacificação daquela região da Zona Norte da cidade. Temos ainda o Centro de Operações Especiais (COE), que reunirá nas proximidades do Complexo da Maré as sedes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e outras unidades especializadas da Polícia Militar. Muito mais que uma sede, o local será um centro de treinamento e vai colaborar para o processo de pacificação da cidade.

Operacional – A Rio+20 foi um teste importante para a segurança do estado. É possível fazer um balanço do aparato de segurança montado para a conferência e seus resultados práticos.

Beltrame – Mais importante do que os equipamentos, os recursos tecnológicos, treinamentos e a logística montadas durante a Rio + 20, é o aprendizado deixado para os próximos grandes eventos que serão realizados na cidade. A Secretaria de Segurança já havia tido duas experiências importantes, os Jogos Panamericanos de 2007 e os Jogos Olímpicos Militares em 2010, nas quais aprendeu muito e aproveitou esses ensinamentos no planejamento para a Rio+20. Agora, tivemos uma nova experiência, o maior evento internacional realizado no Rio de Janeiro desde a ECO-92. A PM de outros estados brasileiros (DF, SP e CE) enviou oficiais ao Rio para acompanhar a atuação da PM no evento. Agora, estamos avaliando a experiência da Rio+20, para tirar lições que possam aperfeiçoar o planejamento da Jornada Mundial da Juventude Católica e da Copa das Confederações, ambos em 2013. E o conjunto de medidas de segurança, de forma integrada com as Forças federais e a Guarda Municipal, se mostrou eficiente, pois os indicadores estratégicos de criminalidade durante o evento estriverem muito baixos. A Rio+20 marcou também a primeira experiência com o Regime Adicional de Serviço (RAS), que prevê o pagamento pelo trabalho dos policiais em horário de folga. Em termos de equipamentos, a Secretaria de Segurança investiu R$ 12 milhões de recursos próprios na compra de cavalos, equipamentos de proteção (para soldados e para cavalos) e armas não letais para os Batalhões de Polícia de Choque (BPChoque) e de Polícia Montada (BPMont) da PM. A estrutura montada para o evento envolveu duas delegacias móveis da Polícia Civil, no Riocentro e no Aterro do Flamengo, e quatro Postos de Comando e Controle da PM, instalados no Riocentro, no Aterro do Flamengo, na Quinta da Boa Vista e no Pier da Praça Mauá. A PM utilizou cerca de 400 viaturas, 89 cavalos, 58 motocicletas, 13 cães farejadores e dois helicópteros. Foram usados também dois helicópteros da Polícia Civil, incluindo a aeronave com a câmera Flir, que permite captar imagens de longa distância, mesmo no período noturno. Além disso, o esquadrão Antibombas e o Grupo de Intervenção Tática da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) ficaram de prontidão para qualquer eventualidade.

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Operacional – O Estado Rio de Janeiro possui em seu inventário de equipamentos o Bell, o Esquilo blindado e uma série de veículos blindados. Como o senhor avalia hoje o nível de equipamento da Polícia Civil e da Polícia Militar? Existe ainda alguma demanda?

Beltrame – Nós estamos muito atrasados, muito mal. Eu inclusive acho que o Rio de Janeiro não pode receber os países do mundo inteiro, que vão vir aqui a partir da Rio+20, com o que ele tem. Nós não podemos apresentar um blindado, não um blindado para subir morro, mas um blindado para dissuadir uma turba, nas condições que nós temos. Uma comissão nossa está indo à África do Sul ver blindados mais arrumados. Para te dar um dado, no BOPE, que é a melhor tropa de assalto do mundo, os snipers não tinham o seu fuzil. Os fuzis que o BOPE tinha eram fuzis que vinham de forças federais, doados, muitas vezes descarregados. Isto é inconcebível, um sniper do BOPE não ter o seu fuzil. Hoje eles têm. Correram o mundo, eu pedi para eles correrem o mundo e fazerem um laudo do fuzil que eles entendem que é o melhor. E conseguimos isso, inclusive com a contribuição, com o entendimento das próprias forças armadas de que o sniper qualificado pelo BOPE é de primeira. E hoje cada um tem o seu. Não é aquela de “regula a mira hoje que eu estou de plantão, e amanhã vem outro e regula pra você…”. Então nós temos ainda muito que melhorar. Eu acho que, infelizmente para o mercado interno, nós temos que partir para equipamentos internacionais. Você hoje tem pistolas mais leves, tem equipamentos muito mais anatômicos. Você tem coletes à prova de balas muito mais leves. A gente sem dúvida nenhuma tem que evoluir. Não estou dizendo na questão da letalidade, mas nós precisamos dar um material decente para o policial. Se o médico tem o seu bisturi, se o advogado escolhe o seu código para trabalhar, por que o policial não pode ter uma ferramenta adequada, leve, anatômica, considerando que ele tira 12 horas de serviço ininterruptas com esses fuzis. E eu presenciei isso, quando aquele helicóptero caiu lá (morro dos) nos Macacos, eu fiquei 24 horas num batalhão da Tijuca. E eu via o BOPE, porque os caras são de não parar de trabalhar, com aqueles fuzis 7,62 na bandoleira, molhados. Aquilo é, inclusive, além de contraproducente, uma questão da saúde, da relação do trabalho. E você hoje tem fuzis aí com três, quatro quilos. Vai andar com um fuzil de nove quilos, oito quilos?

Operacional – O senhor tem informação sobre essa questão dos blindados? Porque até nisso a filosofia é outra…

Beltrame – A tendência do blindado é diminuir, eu não quero mais usar blindado. Por dois motivos: primeiro porque na medida em que eu diminuo a área conflagrada, por que eu vou aumentar o número de blindados? Eu tenho que diminuir o número de blindados. Agora, os blindados que eu tenho não quer dizer que não devam ter qualidade. Vai ver os blindados que nós temos, nós temos que tirar esses daí e comprar poucos, mas equipamentos interessantes e descentes. Eu acho que hoje a nossa frota pode ser cortada pela metade. E em segundo lugar, por que eu vou investir em blindados se a Marinha do Brasil hoje entende perfeitamente a nossa situação e me cede, por horas – na Mangueira eles entraram às 6h da manhã e às 9h recolheram. Por que eu vou comprar 15, 20 blindados? Eu compro outra coisa. Mas eu tenho que ter, para pequenas ações. E tem que ter um lugar onde eu ponha 10, 12 homens equipados, com ar condicionado, um carro que eu saiba que não vai dar problema.

Operacional – O cuidado com o ser humano ali dentro – a questão do ar condicionado é um pré requisito, nós estivemos conversando com algumas empresas que estão oferecendo, como o próprio CTEx –, e seria um veículo de patrulha, mais leve do que os atuais…

Beltrame – A gente precisa desse tipo de equipamento não para agredir, mas para chegar a um lugar e dali capilarizar o policiamento. Eu preciso chegar no lugar X, largar 12 homens “lá” e 12 homens “aqui” e fazê-los progredir.

Operacional – Em termos de aeronaves, ainda há alguma aquisição a ser realizada?

Beltrame – Nós temos uma da Polícia Civil, uma da Polícia Militar, e uma da SENASP que está para vir já tem um bom tempo. Não temos mais aquisições em vista. Nós queremos investir na frota dos Esquilos, quem sabe mudar essa aeronave, mas no sentido de modernizar.

 

Entrevista concedida em 20 de dezembro de 2011.

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