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Força Aérea

O dia de um “caçador” da Força Aérea Brasileira

Por   

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imglogo Mais um dia nasce e os primeiros raios de sol alcançam a grama molhada pelo orvalho da madrugada, levantando a cabeça observa-se também os mesmos fachos de luz alcançando o imponente e histórico Hangar do Zeppelin na Base Aérea de Santa Cruz, a “cidade da caça”.  O Relógio na parede da sala de Briefing marca 07:00 hs.

Olhando ao redor nota-se uma movimentação grande de pessoas, em um entra e sai frenético de pilotos e mecânicos de voo que se encaminham a uma porta que os conduz em direção aos hangares, onde estão abrigadas e sendo abastecidas as aeronaves A-1 do 1º/16º GAv.

Começa-se assim mais um dia normal e rotineiro na vida de quem está acostumado a voar com velocidades superiores a 1.000 km/h, enfrentando gravidade positivas e negativas. Homens comuns que fazem do seu dia a dia, algo incomum a grande parte da população, mas que para eles é tão normal quanto um singelo passeio de bicicleta.

A grande maioria das pessoas tem a curiosidade de poder saber como é a rotina de um piloto de caça, de saber o que se faz para ter a segurança necessária para poder estar voando mais rápido do que o som e de poderem também enxergar através dos olhos (lentes) de um piloto como é o mundo visto por eles lá em cima.

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Baseado neste sentimento de curiosidade é que a Operacional, com exclusividade, teve a oportunidade de entrevistar o Capitão Rodrigo Perdoná, piloto de A-1M do 1º /16º Grupo de Aviação de Caça “Esquadrão Adelphi”, que nos revelou um pouco da sua rotina de “caçador” e principalmente os cuidados necessários no exercício da profissão.

Operacional –  Bom dia, Capitão. Poderia se apresentar aos nossos leitores?

Cap.-Av Perdoná – Bom dia, sou o Capitão Aviador Rodrigo Perdoná da Força Aérea Brasileira. Atualmente, atuo no Esquadrão Adelphi, unidade aérea especializada em missões de ataque ao solo.

OP – O que significa sua profissão para você?

Cap.-Av Perdoná – Nós, militares, externamos o que realmente sentimos na prática: muita vibração e entusiasmo. Tenho na profissão o exercício de uma atividade que me traz satisfação pessoal e profissional.

OP – Você poderia descrever para nós como é sua rotina profissional no dia-a-dia?

Cap.-Av Perdoná – A exigência dos pilotos na Aviação de Caça é muito grande. Para executarmos uma missão temos que estudar minuciosamente cada detalhe relacionado com ela. Como exemplo, posso citar uma missão de ataque ao solo simulado, que fazemos com frequência: somos escalados para voar a missão, então temos que traçar uma rota adequada no mapa, englobando diversos dados como consumo de combustível, tempo de voo, distâncias, características do terreno, etc.

Feito este planejamento, reunimos os pilotos que irão realizar o ataque (em nossas missões normalmente voamos com duas ou mais aeronaves), padronizamos os procedimentos a serem realizados em voo, e depois “partimos” para a aeronave. Após a execução da missão, reunimos novamente os pilotos para discutirmos sobre o que aconteceu e pode ser melhorado, de forma a aperfeiçoar cada vez mais o voo e o cumprimento das missões.

OP – Qual seria então o principal “campo de treino” utilizado hoje pelo Esquadrão?

Cap.-Av Perdoná – Normalmente, voamos em um espaço aéreo pré-definido que se localiza entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo ou então em rotas definidas em plano de voo que podem variar de acordo com o tipo de missão. Temos ainda um simulador de voo onde executamos nossas atividades preparatórias, de estudo e de treinamento.

Esse recuso nos permite treinar as situações normais e algumas emergências ou situações anormais que poderiam acontecer em voo, fazendo com que o piloto execute da melhor forma possível todos os procedimentos exigidos.

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OP – Quais são os principais riscos que um piloto de caça está exposto em sua rotina operacional? 

Cap.-Av Perdoná – O voo em um caça é exigente por natureza. Normalmente, somos submetidos a intensa carga “G” (maior que uma gravidade. No solo, estamos sob o efeito de um “G”). Além disso costumamos voar baixo e em grandes velocidades. Nosso preparo é proporcional ao risco a que estamos submetidos.

A aeronave é equipada com assento ejetável, que permite o lançamento do piloto para fora do caça em caso de uma pane irreversível que ocasione a queda do avião. As ejeções são raras pois o avião é muito seguro, possuindo sistemas principais e reservas, que proporcionam uma segurança extra ao piloto em caso de falhas. Nossa manutenção também é extremamente atuante, profissional e segura.

OP – E como fazer para reduzir estes riscos inerentes a  profissão?

Cap.-Av Perdoná – Na nossa Unidade Aérea, possuímos um setor de segurança de voo, setor responsável por difundir a mentalidade de “voar seguro”. Esta mentalidade não se aplica apenas aos pilotos, mas a todos os militares do Esquadrão, já que todos podemos contribuir para a segurança, seja detectando algo que seja prejudicial para a atividade ou seja respeitando os limites de operação dos equipamentos, fadiga, etc.

Normalmente são ministradas instruções periódicas muito frequentes sobre esse tema e pelo menos uma vez por semana fazemos uma vistoria no pátio de estacionamento das aeronaves para detectar objetos soltos que podem danificar a aeronave, nestas atividades todos participamos, pilotos e mecânicos. Aliado ao trabalho do setor de segurança de voo, os pilotos treinam e estudam diariamente as emergências que podem acontecer, de forma que se algo anormal aconteça, somos capazes de resolver de forma efetiva e segura.

OP – Você já passou por alguma situação de risco onde algo deu errado? Como você solucionou?

Cap.-Av Perdoná – Em 2012 tive um estouro de pneu por uma falha no sistema de freio da aeronave. Esta situação, que não é comum, é muito crítica no tipo de avião que voamos, porém através da execução dos procedimentos que foram treinados em simulador para este tipo de situação, nada de mais grave aconteceu.

OP – Como você lida internamente com o risco ao qual você se expõe? 

Cap.-Av Perdoná – Confiamos muito na excelência da manutenção das nossas aeronaves, além disso o nosso treinamento intenso nos permite um certo conforto para enfrentar os riscos envolvidos de forma segura. Trabalhamos com o risco aceitável.  Mesmo assim, antes do cada voo ligo para minha esposa e digo: “estou indo voar”, e a resposta sempre é “me liga quando pousar!” (Risos).

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OP – Qual a maior realização que sua profissão já te deu?

Cap.-Av Perdoná – Em um evento Portões Abertos que aconteceu na Base Aérea de Natal em 2013, estava apresentando o avião para o público, milhares de pessoas se confundiam na multidão do pátio naquele dia ensolarado. Faziam filas para chegar perto do avião que estava protegido por cones de balizamento, correntes e outros militares ao seu redor, seguranças da área operacional. Minha função, como piloto escalado para aquele evento, era explicar ao público sobre o avião, um a um, família a família.

À medida que a fila andava, as pessoas subiam no avião para tirar a “famosa” foto vestidas de piloto e dentro da cockpit daquele “trator” voador, o Caça A-1M, atualmente AMX, a aeronave de caça mais moderna da Força Aérea Brasileira. Algumas horas se passaram e centenas de pessoas já haviam visitado a aeronave, quando chega a vez de um senhor com deficiência visual que estava acompanhado por um homem jovem, provavelmente seu parente: “Boa tarde! Não posso enxergar, você pode descrever o avião para mim?”, perguntou o senhor.

Fiquei um tempo calado, pensando como explicaria, já que fui pego de surpresa e nunca ocorrera uma situação parecida antes. Então, num momento de inspiração, levantei a corrente que estava do lado, que servia de bloqueio para separar o público do avião, pedi para que o senhor se abaixasse e colocasse uma das mãos no meu ombro esquerdo.

O acompanhante ficou aguardando do lado de fora. Peguei a outra mão dele e, guiada pela minha, começamos a apalpar, analisando cada detalhe do caça, a partir do nariz, passando pela asa esquerda, profundares, escapamento, trem de pouso, asa direita e finalizando no nariz novamente. Cada nuança foi explicada, cada curva analisada. As pessoas na fila que antes estavam impacientes, agora olhavam com admiração e paciência a emoção que transbordava na face daquele homem.

Ao final, ele disse: “Agora, depois de 62 anos, consegui ver um avião!” E pediu para que descrevesse como era um voo e qual a melhor sensação de se voar, então respondi: “Quando o dia está nublado, daqueles com chuva e escuro, quando a única sensação que se tem é que nada há além daquelas nuvens, ignorando qualquer atribulação da vida cotidiana, guarnecemos a aeronave, ligamos o motor e decolamos!

Entramos nessas nuvens cinzentas logo após sair do chão, onde geralmente o ar é turbilhonado e faz o avião sacudir bastante. Em meio a tempestade, nada mais se deseja além do que solo firme, mesmo que lá embaixo estejamos sob forte chuva, mas de repente, depois de enfrentar o desafio nada agradável e de atravessá-las, o céu fica azul e limpo e aquelas nuvens todas, que antes deixavam o dia nublado, agora formam um imenso e belo tapete que cobre a Terra, e onde se tinha escuridão, agora se tem a sensação de alívio em saber que independente de como estamos aqui embaixo, o céu sempre estará azul lá em cima!”. Neste momento, ele tirou os óculos e me abraçou e as pessoas ao redor comovidas bateram palmas como forma de sinalizar para aquele senhor que estavam ali com ele. Nunca me esquecerei daquele dia, daquele senhor e daquela frase: “Agora consegui ver um avião!”

OP – Você lembra de algum evento traumático que te marcou e que, depois, transformou a maneira de você encarar a sua profissão e os riscos envolvidos nela?

Cap.-Av Perdoná – O preparo que temos durante nossa formação nos permite encarar qualquer situação, por mais difícil que pareça, com seriedade e profissionalismo. Estudamos e investigamos qualquer ocorrência, de forma a prevenir que evento similar aconteça novamente. Visamos à segurança de voo acima de tudo.

OP – Quais as regras que você não abre mão, pois podem salvar sua vida?

Cap.-Av Perdoná – Cumprir estritamente o que está previsto na missão a ser executada e segurança de voo. Nunca voar fora dos limites.

OP – Você fica ligado em acidentes com outros colegas de profissão?

Cap.-Av Perdoná – Sim. Sou investigador de Acidentes Aeronáuticos. Mas além disso, tudo que envolve nossa profissão, seja positivo ou negativo, como um acidente, serve para o nosso enriquecimento profissional e os frutos da investigação contribuem para a Segurança de Voo.

OP – Capitão, qual a mensagem final que gostaria de deixar para os nossos leitores?

Cap.-Av Perdoná – Antes de qualquer coisa é importante ressaltar a honra que é poder me dirigir e este público tão seleto que são vocês, leitores da Revista Operacional e entusiastas dos assuntos operacionais, históricos e culturais tratados com excelência pelos editores, repórteres e colaboradores.  Costumamos dizer que existem pessoas que tem o Espírito do Piloto de Caça, e estas não necessariamente são pilotos, mas sim todas aquelas que exercem a sua profissão ou suas atividades com total dedicação e empenho, sempre almejando o melhor resultado possível.

Ao traçar uma meta ou um objetivo, que ele seja o mais ambicioso, ou o mais grandioso, algo que cause espanto a alguns, algo que pareça distante e inatingível, mas que com dedicação e abdicação de tempo e atenção são possíveis de serem concretizados. Tenham em mente que nada é impossível, o impossível não existe. Corram atrás de seus sonhos, quem faz o nosso destino somos nós mesmos, sonhos são um rascunho do nosso futuro. Ao sonhar, sonhem o mais alto possível e nunca parem de aprender, qualquer que seja o assunto aprenda, leia, converse e aprimore! Sejam humildes, pois um bom trabalho se destaca por si só.

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Aos mais jovens, deem valor aos seus pais, afinal os cabelos brancos já passaram por situações diversas e nada substitui as experiências vividas. Continuem estudando e estudando para enfrentarem a batalha da vida que é constituída de desafios e acontecimentos que engrandecem cada um de nós e lembrem-se “não há atalhos para caminhos valham a pena”. E para finalizar, gostaria de dividir com vocês o poema que está estampado nos paraboloides do Corpo de Cadetes da Aeronáutica, onde o caráter de homens e mulheres é forjado a ferro e fogo:

“Se és capaz de manter a tua calma quando

Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

E para esses, no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,

De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

Tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas

Em armadilhas as verdades que disseste,

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada

Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

Resignado, tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo

A dar seja o que for que neles ainda existe,

E a persistir assim quando, exaustos, contudo

Resta à vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

E, entre reis, não perder a naturalidade,

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

Se a todos podes ser de alguma utilidade,

E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao minuto fatal todo o valor e brilho,

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que mais – tu serás um homem, meu filho!”

Sejam felizes, este é o meu sincero desejo.

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Além de aventurar-se no comando dos A-1M do 1°/16°, o Cap. Rodrigo Perdoná arrisca-se como fotógrafo e consegue cliques profissionais em seus voos. Separamos alguns registros fantásticos e de ângulos inusitados para nossos leitores.

Perdona

Embarque com a Operacional TV na nacele do A-1M do 1°/16° GAv e experimente a sensação de um voo fantástico!

Perdona

Nota do Editor: Gostariamos de agradecer aos Tenentes Willian e Daniele, do CECOMSAer, e ao Ten.-Cel Av Roberto Martire, Comandante do 1º/16ºGAv, pelo apoio que nos foi concedido na realização desta matéria. Agradecimento em especial ao Cap.-Av Rodrigo Perdoná, pela amizade constante. A família Operacional lhe parabeniza por sua promoção! Adelphi!

Fonte | Fotos: operacional

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